O Êxodo, parte II
   
 
 
 

Algumas pessoas sentem-se livres quando fazem canoagem em um lago puro nas vastidões intocadas. Sinto-me livre quando minhas desculpas se acabam.

Existe algo que desejo muito fazer. Mas também não desejo fazê-lo. Por isso ponho a culpa em minha mulher, meus filhos, minha idade, minha juventude, minha infância, meu senhorio ou meu chefe. Funciona por uns tempos - um dia, um mês, um ano - mas finalmente, inevitavelmente, chega a um ponto em que não sobra mais desculpas.

Que alívio! Respiro profundamente. Sinto-me mais leve. Agora estou sozinho no ringue - meu eu interior e meu eu exterior, meu eu motivado e meu eu inerte - e que vença o melhor.


A leitura da Torá desta semana, Beshalach (Shemot 13:17 - 17:16), poderia ser chamada de "O Êxodus, Parte II." Na leitura da semana passada, Bô, vimos como a última das Dez Pragas finalmente derrotou o ânimo dos egípcios e, após quatro gerações de escravidão, os Filhos de Israel marcharam triunfalmente para fora do Egito, as matsot assando ao sol.

Chegou a hora dos créditos aparecerem na tela? Não é bem assim. Ao invés disso, temos um cenário com as palavras: "Sete dias depois" e a cena de abertura de Beshalach. Os Israelitas caminham serenamente pelo deserto, depois olham sobre os ombros para ver os egípcios em sua perseguição. Parece que sair do Egito não vai funcionar. Temos de partir um mar ao meio antes de prosseguirmos para o Sinai.

O que está acontecendo? Os egípcios não foram decisivamente derrotados, não se provou que seus deuses nada valiam, seu Faraó não foi totalmente humilhado? Não apareceu ele no meio da noite, de pijamas, literalmente implorando a Moshê e Aharon para tirarem seu povo do país o mais breve possível? Quem é, então, este poderoso Faraó que se materializa feito uma miragem no deserto, rente em nossos calcanhares com um exército de carruagens de guerra e cavaleiros?

O ensinamento chassídico explica que há, de fato, duas fases distintas para a busca da liberdade pelo ser humano. Eis por que temos Bô e Beshalach. Eis por que temos os primeiros e os últimos dias de Pêssach. Eis por que temos o Êxodo do Egito e a Divisão do Mar.

Há dois tipos de escravidão. Existe um tipo de escravidão na qual os grilhões que acorrentam nossa alma são impostos pelo lado externo - como quando seu chefe o demite, seu senhorio aumenta seu aluguel e sua sogra convida-se para o fim de semana. E há também a escravidão interna que vem correntes que nós mesmos nos impomos - nossa ira, nossa vaidade, nossa indolência e nossa cobiça.

É fácil nos imaginarmos livres quando sobrepujamos uma limitação imposta pelo lado externo. Ficamos chocados e surpresos ao descobrir o Faraó em nossa perseguição após termos escapado do Egito. Mas o Faraó que vemos aproximando-se de nós no deserto é um Faraó que trouxemos conosco do Egito. Fomos libertados do Egito que nos dominou externamente, mas ainda devemos superar o Egito dentro de nós mesmos.

Para fazê-lo, temos de dividir nosso mar, penetrando nas profundezas de quem e do quê somos para descobrirmos nosso verdadeiro eu.

     
   
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