"Sentar" Shivá

 
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  Por Maurice Lamm
 

Sair de Casa Durante a Shivá

A tradição mais característica do luto judaico é o retiro do enlutado no recesso de seu lar após a morte de um parente próximo. Ele não se mistura socialmente, não participa de eventos alegres ou faz viagens recreativas durante essa época.

Esta tradição de ficar em casa está baseada, geralmente, em dois motivos. Primeiro, uma razão prática: se ele está proibido de fazer negócios ou experimentar prazeres, a casa é o local mais lógico para ficar. Segundo, isso tem um valor positivo, que ajuda a curar: o luto é um profunda experiência em solidão. Os vínculos que ligam uma alma a outra foram cortados, e há um grande senso de solidão. Permanecer incomunicável é expressar sofrimento pela ruptura da comunicação com alguém que amamos. Em determinadas ocasiões a pessoa tem o direito, até uma obrigação, de ficar sozinha. Esta é uma delas. O enlutado, portanto, fica em casa durante todo o período de shivá. Torna-se então o dever moral da comunidade judaica ir à porta do enlutado e confortá-lo com palavras elogiosas sobre o falecido, dessa forma tirando-o da solidão e encaixando-o novamente na estrutura social.

A seguir alguns detalhes sobre a lei de permanecer em casa durante a shivá:

1 – Se há uma forte necessidade de o próprio enlutado sair de casa para cumprir pessoalmente uma mitsvá, como a circuncisão de um filho, ou a compra de tefilin, que outros não podem cumprir por ele, então pode sair de casa para esse fim.

2 – O enlutado não pode sair de casa para participar de uma mitsvá que pode ser cumprida sem a sua presença, como comparecer a um bar mitsvá, a circuncisão do filho de um parente ou amigo, comparecer a um casamento ou prestar condolências a outros enlutados.

3 – Se a casa de shivá não tem lugar disponível para os enlutados dormirem, ou se eles são necessários em sua própria casa (especialmente se um dos enlutados é mãe de filhos pequenos), ou se o enlutado deseja mudar o local do luto para que amigos pessoais e vizinhos possam ter a oportunidade de fazer uma visita, eles têm permissão de deixar a casa de shivá. Devem fazer isso, porém, da maneira abaixo descrita.

4 – Se durante a shivá ocorrer a morte de outro dos sete parentes próximos para quem a pessoa está religiosamente obrigada a se enlutar, ela pode deixar a casa para acompanhar o funeral, sem fazer alarde disso. Se ele é necessário para fazer os arranjos do funeral ou agir como carregador do féretro, etc., ele pode comparecer ao funeral mesmo durante o primeiro dia de shivá (ou seja, a segunda manhã após o enterro). No funeral ele pode acompanhar o corpo do falecido por uma curta distância, sempre permanecendo na periferia do cortejo.

5 – Se não há minyan que possa ir à casa e se, de acordo com as qualificações acima estipuladas, ele escolhe freqüentar o serviço, ele deveria rezar na sinagoga mais próxima. Deve ir sozinho, ou na companhia de outros enlutados. Se ele estiver de carro, considera-se que está sozinho. A distância que ele é obrigado a viajar não tem importância. Deve-se notar que o enlutado não pode usar essa ocasião para fazer qualquer coisa, exceto comparecer aos serviços.

6 – A necessidade de sair de casa para assuntos profissionais, ou emergências, será considerada num capítulo abaixo, sobre trabalho durante shivá.

7 – Um mohel pode sair de casa para realizar uma circuncisão, pois isso deve ser realizado somente no oitavo dia após o nascimento. Se não houver outro mohel disponível, ele pode fazê-lo até mesmo no primeiro dia de sua shivá. Se houver outro mohel disponível, mas somente seus serviços são desejados, ele pode fazer a circuncisão, desde que ocorra depois do terceiro dia do período de shivá.

8 – Um Cohen, exigido para um pidyon ha'ben (redenção cerimonial do filho primogênito, que deve ser realizada somente no 30 dia após o nascimento), segue o mesmo regulamento aplicado ao mohel.

9 – O enlutado pode ser solicitado a servir como sandac num berit após o terceiro dia, mas é considerado impróprio fazer este pedido a ele. Uma pessoa de luto certamente terá sentimentos ambivalentes sobre aceitar esta honra.

10 – O enlutado deveria comparecer aos serviços congregacionais em Tishá Beav e Purim. Se um minyan e Rolos de Torá não estão facilmente disponíveis, ele deveria também rezar com uma congregação no Shabat.

11 – Deve-se fazer todos os esforços para não deixar a casa de shiva até o terceiro dia – ou seja, (como explicado acima) a segunda manhã após o enterro. Ele deveria fazer o possível para sair apenas após escurecer. Se isso não se provar prático, pode sair durante o dia, mas deve proceder tão discretamente quanto possível. Não deve usar sapatos de couro, nem mesmo fora da casa, como se verá mais abaixo. Se isso for impossível, deve colocar alguma terra ou areia em seus sapatos, causando-lhe desconforto como um constante lembrete de que está de luto. Em todas as situações complicadas, obviamente, um rabino deve ser consultado.

"Sentar" shivá

É uma antiga tradição judaica que os enlutados, durante a shivá, não se sentem em cadeiras de altura normal. Até os tempos modernos era costume sentar-se sobre a própria terra, um procedimento que demonstrava o afastamento da normalidade durante os primeiros estágios do sofrimento. Assim, era expresso o sentimento de solidão que a pessoa sentia após seu ente querido ser enterrado na própria terra sobre a qual ele se sentava. A Torá nos diz que quando Job sofreu uma sucessão de desastres, ele foi confortado por amigos que se sentaram com ele "sobre a terra". Isso é, num sentido quase literal, um ajuste físico ao estado emocional da pessoa, abaixar o corpo ao nível dos próprios sentimentos, uma encenação simbólica de remorso e desolação.

O enlutado atual senta-se "na terra", segundo a expressão bíblica, ao sentar-se próximo da terra num banco de madeira ou banquinho de apoio para os pés, num capacho ou sobre algumas almofadas. O material que o enlutado escolhe para sentar-se é, na atual situação, irrelevante. Não é o banco que é importante. Primeiramente, estipula a tradição, ele deve sentar-se num nível mais baixo que o assento normal e se é ou não confortável não vem ao caso. Se ele desejar, pode colocar uma almofada sobre o banco. Dormir numa cama de altura normal é permitido.

Listamos abaixo alguns detalhes sobre a tradição de sentar shivá:

1 – A pessoa não precisa "sentar" durante a shivá. Pode ficar de pé ou deitar. A tradição diz respeito apenas ao fato de que, quando o enlutado se senta, deve fazê-lo sobre um assento mais baixo que o usual.

2 – Pessoas idosas, os fisicamente fracos, e mulheres grávidas podem sentar-se em cadeiras normais. No entanto, devem fazer um esforço, se possível, para sentar-se num banco baixo quando chegam os visitantes que vieram confortar os enlutados. Este luto demonstrativo é o aspecto mais importante da tradição de "sentar", e deveria ser levado muito a sério.

3 – O enlutado não precisa levantar-se de seu assento em respeito por qualquer visitante, mesmo que esse seja importante, um renomado erudito ou uma personalidade pública.

4 – Se o enlutado deseja sentar-se na entrada da casa ou terraço, pode fazê-lo, desde que se sente num banco baixo.

 

 

 
   
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